Três décadas de Encontros Nacionais

O ano de 1977 representa um marco para a organização dos estudantes de Farmácia no Brasil, ano em que esses acadêmicos de diversas Instituições de Ensino Superior (IES) tiveram a necessidade de se reunirem em plena ditadura militar para discutirem sobre a implantação dos recém cursos de Biomedicina. Este primeiro momento, ou melhor, I Encontro Nacional de Estudantes de Farmácia (ENEF) ocorreu na USP fundamentalmente com a pauta de debater qual seriam as funções sociais de um biomédico, se a sua existência seria desnecessária, atendendo apenas aos interesses de mercado, pois o trabalho farmacêutico (nas Análises Clínicas) já supriria a demanda, não havendo a necessidade de biomédicos.

Após esse primeiro contato, os estudantes criaram uma expectativa ao redor de quando iriam se encontrar novamente, tornando o ENEF um espaço anual. No ano posterior o ENEF aconteceu na vizinha Minas Gerais e em 79 em Salvador-BA, consolidando assim o que viria a ser, anos mais tarde, a maior instância de deliberação do Movimento Estudantil de Farmácia (MEF), que é o Encontro Nacional.

A déc. de 80 foi uma experiência riquíssima para mais um passo na construção do processo histórico do MEF. No ENEF de 1982, em Curitiba-PR, agentes federais participaram do evento para fiscalizarem as atividades políticas dos estudantes de Farmácia. Em 83 (ano do ENEF em Belo Horizonte-MG) o MEF promoveu uma de suas primeiras grandes mobilizações em nível nacional decorrente do Projeto de Lei nº 486/83 do deputado Inocêncio Oliveira que imprimia nova redação ao art. 15 da Lei nº 5.991/73, que dispunha sobre o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos. Dizia o PL: “ser desnecessária a permanente presença do farmacêutico em estabelecimento do gênero que não manipule medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos.”

Ao longo dos anos 80, a história registra muitas ações do MEF tanto no seio parlamentar como nas ruas. “Dia de Luta”, “Greve das Escolas de Farmácia”, “Movimento de Outubro”, “Dia Nacional de Paralisação”, “Movimento Pró-Luta”,… todas atividades organizadas (e muitas delas discutidas nos ENEFs de 82; 83; 87, em São Paulo-SP; 88, em Belém-PA) a partir de PL’s que distorciam a atuação do profissional farmacêutico podendo ocasionar risco para a população e um caso de saúde pública.

Os ENEFs da déc. de 80 também trouxeram muitos temas e debates de análise crítica como “Educação e Saúde como transformação social” (1988), “O farmacêutico da Universidade à Sociedade” (1989), e os sub-temas (eixos): “Ensino Pago X Público”, “Educação e luta de classes”, “O Ensino de saúde a serviço de quem”, “Indústria Farmacêutica e o desenvolvimento econômico (relação com o mercado internacional, propaganda, indução e consumismo)”, “indústria Farmacêutica: estatizar ou nacionalizar”, “Dívida externa”, “Ensino: reflexão X reprodução”, “Autonomia na produção de fármacos”, “O farmacêutico e a constituição”.

No começo dos 90 com a volta da “democracia”, apesar dos levantes estudantis contra o esquema de corrupção no governo Collor e dos “caras-pintadas” terem ido às ruas exigir o impeachment do presidente, o MEF passou por momentos difíceis. Prova disso foi a deliberação de que não seria possível realizar o ENEF de 91 em João Pessoa-PB. Porém, o MEF deu a volta por cima reestruturando sua organização e criando, oficialmente, em 1994 (ano do ENEF de Londrina-PR) a Executiva Nacional dos Estudantes de Farmácia (ENEFAR).

Naqueles tempos o MEF andava bem entusiasmado e em 97, no ENEF de Recife-PE, até houve um ensaio do I Encontro Latino Americano dos Estudantes de Farmácia e em 98 (Belém-PA) pautou na ordem do dia o escândalo da falsificação de medicamentos, deliberando em 99 (ano do ENEF em Goiânia-GO) a criação da “Campanha 5 de Maio, pelo uso Correto de Medicamentos”.

Durante o ano 2000 e os primeiros anos do séc. XXI, os ENEFs (2000 em São Luís-MA, 2001 em Araraquara-SP, 2002 em Vitória-ES e 2003 em Cuiabá-MT) passaram por momentos marcantes, polêmicos e históricos (programas de intercambio; criação da Lista de discussão da ENEFAR na internet; “Farmagay e Farmaquenga”-atividade machista e homofóbica realizadas nas noites do ENEF- e, até acusações de desvio de verbas). Até que o ENEF de 2004 em Campinas-SP, veio como um divisor de águas na história dos ENEFs, rompendo idéias, várias barreiras, tocando em assuntos importantes, mas até então renegados. Foi trazido para o seio do MEF um debate mais amplo, mostrando a necessidade de nos encararmos como classe trabalhadora e seres humanos explorados pelo sistema capitalista e não uma máquina sem relações com o meio social, a “máquina farmacêutica”.

E de lá pra cá, os Encontros Nacionais têm aprofundado bastante as questões sociais como um todo. Assim foi no grande ENEF de Curitiba-PR em 2005 que concretizou efetivamente a dinâmica dos “sub-coletivos” e também ficaria marcado por ter sido neste ENEF que a plenária final elegeu uma Coordenação Nacional que não assumiu a ENEFAR, ficando a Executiva a cargo de uma Comissão Gestora até o próximo ENEF. E o próximo Encontro seria em Ouro Preto-MG, mas poucos meses antes o MEF foi obrigado a mudar o local para Belo Horizonte, onde ocorreu um ENEF com poucas pessoas, mas bem qualitativo nas discussões, como o debate levantado na Mesa Saúde, “Farmacêutico: profissional de Saúde, ponto!” além de outros espaços como tendas de vídeo e ambientação bem interativa.

Em 2007, o ENEF de São Luís-MA se mostrou ousado ao estender uma enorme bandeira GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) logo no corredor de entrada, causando inevitavelmente muita inquietação e conseqüente discussão espontânea entre os participantes. O ENEF do ano passado também experimentou amplamente os “espaços transversais” (como a Tenda Feminista) além de trazer como tema um convite para a reflexão sobre a realidade em que vivemos “Tudo está a venda: aceitar ou transformar?”, batendo violentamente na questão mercantilizadora da saúde e da educação.

Este ano de 2008 comemoramos o 31º Encontro Nacional de Estudantes de Farmácia que volta a ocorrer na capital goiana depois de nove anos (desta vez de 20 a 26 de julho, com o tema “Da competência Técnica ao Compromisso Político”). Se, em 1999 a conjuntura nacional nos apontava para discutirmos sobre a falsificação de medicamentos e os agressivos ataques do governo FHC a educação pública e gratuita (via “Provão”, privilégios fiscais ao setor privado, precarização das Universidades Públicas, …), hoje, não diferente de 99, a atmosfera de conflitos sócias nos rodeia e nos leva à necessidade de debatermos ciência, política, cultura e arte com um olhar crítico-transformador e conscientes de que a sociedade capitalista deve ser superada por outra alternativa em que o mais importante não seja o capital e sim a humanidade.

A atual situação, por exemplo, não nos permite pensar que a análise da sociedade brasileira esteja separada dos problemas que acometem os trabalhadores farmacêuticos ou a Academia, pois ssão latentes as disputas de interesses antagônicos entre o governo Lula (e seus aliados) e o Movimento Estudantil e Sindical de luta (vide as ocupações às reitorias, as lutas contra o REUNI e as Fundações Estatais de Direito Privado, contra as Reformas Trabalhista e Sindical, contra a mercantilização da saúde, pela jornada semanal máxima de 30h de trabalho para farmacêuticos, …).

Portanto, neste ENEF, nossa tarefa na história é estarmos encampando com todas as forças a luta por nossos direitos conquistados a duras penas, discutir casos clínicos de processos patológicos, passando pela corrupção proporcionada pelo capitalismo, além de pensar sobre poesia, teatro, dança e arte em geral , sem nos esquivarmos de debates difíceis como racismo e homofobia e esclarecer os participantes do que tudo isso tem a ver com o farmacêutico. Venha descobrir!

Adriano Lopes
UFMA

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4 comentários sobre “Três décadas de Encontros Nacionais

  1. ANA DELIAN disse:

    BOA TARDE,

    GOSTARIA DE SABER SE VOCÊS TERIAM ALGUMA FOTO DO ENEF QUE SE REALIZOU EM SÃO LUIS DO MARANHÃO ACHO QUE EM 2000, PRINCIPALMENTE DAS OLIMPIADAS.

    UM ABRAÇO

    ANA DELIAN

  2. Joâo Paulo disse:

    Boa noite gostaria de complementar sobre o ENEF de Araraquara 2001, o qual foi marcado por uma falta de organização terível que culminou ficarmos alojados em tendas, logo em Vitória foi o ENEF mais desastroso que ocorreu devido a organização do evento na época comandada pelo Sr. Gustavo, o qual faliu e roubou o movimento estudantil, um ENEF marcado pela imoralidade, desorganização. Já em Cuiabá o ENEF foi um modelo de organização o qual foi o 2º ENEF em universidade particular depois de 17 anos atrás uma universidade particular voltou a cediar um ENEF, o qual voltou a dar credibilidade ao ENEF novamente uma vez que os alojamentos (todos) tinham ar condicionado (sala da UNIC), foi contratado um buffet para servir o almoço e jantar aos alunos, e o melhor todos os contratos de prestação de serviço foram registrados em cartório e a prestação de contas foi toda esclarecida, o qual não obteve nenhum recurso do ENEF passado (apenas contas) e conseguiu sanar as dívidas e voltar a estimular outras cidades a cediar o encontro. Também a parte cultural e social do ENEF foi bem marcada!!!!!!

  3. Mircia disse:

    Ah, mas que saudade do tempo da Faculdade e da militância no movimento estudantil! Terminando o curso de Farmácia em 1997, e integrando o Diretório Acadêmico Carl Scheele/UFPE, reforcei a equipe organizadora e participei com orgulho do ENEF em Recife/PE…Muita saudade daquela turma toda… Com alguns ainda falo via internet ou quando volto a Recife, por telefone, ou encontrando por acaso…também em notícias na internet…Mas o melhor de tudo é que, passados 12 anos percebemos que alí, enquanto jovens em início de carreira, formávamos uma massa crítica que hoje vence em batalhas diárias no campo da Saúde Pública.

    Curioso é que, há uns dias atrás, lembrei desse tempo bom… e hoje numa busca que fiz, encontro vocês…

    Moro e trabalho em Manaus, como Sanitarista.

    Deixo aqui meu abraço a todos, parabenizo pelo trabalho e, claro, pela comemoração!!!!!

    MIRCIA SILVA

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